Por que a programação do sono é um dos trabalhos mais importantes da NASA

O astronauta russo Vasily Tsibliyev não desfrutava uma boa noite de sono há 12 dias. Ele se manteve acordado forçadamente, como parte de um estudo sobre dormir a bordo da estação espacial Mir. No décimo terceiro dia (25 de junho de 1997) foi designado para orientar que uma nave de carga atracasse à estação espacial, porém a nave adentrou muito rápido e colidiu com a Mir, reduzindo metade do poder da estação.

Um estudo de caso da NASA descobriu mais tarde que havia problemas com o procedimento de encaixe com a nave, os quais Tsibliyev poderia ter sido capaz de atenuar se não estivesse tão cansado.

“Poderia ter matado a todos”, disse a psicóloga Erin Flynn-Evans, que dirige o programa de pesquisa do sono no NASA’s Ames Research Center. “Foi realmente um desastre.”

Conversamos com Flynn-Evans sobre como ela auxilia o sono dos astronautas no espaço, e o que pode acontecer quando eles não dormem suficientemente.

Qual a diferença entre dormir no espaço e dormir em solo terrestre?

O sono é algo que muitos de nós tomamos como garantido. Muitas pessoas adormecem se conseguirem, ou seja, apenas enxergam isso como algo que tenham que fazer.

Mas no espaço, de certa forma, a questão é: “Você consegue dormir?”. Os astronautas têm que dormir em um ambiente sem peso, o que significa que eles não têm controle de seus braços e pernas, que podem flutuar e bater em seu rostos enquanto dormem. Caso não se restrinjam a uma parede, vão apenas flutuar através da espaçonave em que estão, e isso acontece com alguns deles.

A outra grande diferença entre o espaço e a Terra é que na Terra estamos alinhados ao horário de 24 horas pela exposição à luz solar que recebemos todos os dias. Mas no espaço, a estação espacial orbita em torno da terra a cada 90 minutos, observando um nascer e um por do sol cada 90 minutos. O relógio biológico não pode se adaptar a isso, é muito rápido. Então o que acontece é que o relógio interno começa a desincronizar-se a partir da programação que eles vivenciam lá em cima.

Essa dessincronia é desafiadora porque o relógio corporal é aquele que diz quando ir dormir, e é também o que promove a vigília. Portanto, a consequência funcional é que os astronautas podem estar no espaço e têm um horário programado para dormir, bem como podem ficar acordados por um longo tempo, mas quando tentam “empacotar-se”, podem não serem capazes de pegar no sono.

O que acontece com os astronautas quando não descansam o suficiente?

Basicamente, quando alguém está em privação de sono começa a perder o foco, fica mal-humorado, portanto, se estiver em um ambiente pequeno e confinado com apenas um par de pessoas, pode perder a capacidade de trabalhar em equipe. Na Estação Espacial Internacional isso já é um problema, mas trata-se de um problema ainda maior para o vôo espacial prolongado, como uma missão para Marte. Caso comece a haver rachas entre os membros da tripulação, isso pode tornar-se um problema maior. Também acontecem pequenos deslizes e lapsos. Na Terra, se você está cansado e sair da casa sem seu telefone, é irritante, mas ninguém provavelmente vai morrer por causa disso. Se um astronauta cometer um pequeno erro na estação espacial, alguém pode morrer. Portanto, as apostas são muito altas, e não podemos realmente nos darmos ao luxo de termos membros da tripulação cometendo erros, mesmo que pequenos como esses.

É claro que os membros da tripulação são muito treinados, tudo é diferente da vida na Terra, e há bastante supervisão, mas estamos muito preocupados com o vôo espacial prolongado, pois haverá um atraso de tempo na comunicação, e assim não teremos o mesmo tipo de supervisão que temos na ISS. Será uma missão muito mais longa e mais difícil de programar cada pequena detalhe.

Existe alguma forma de garantir que os astronautas sonolentos não escorregem?

Este verão fizemos um estudo de privação de sono, onde testamos um novo dispositivo que pode ser muito sensível a detectar quando alguém está fatigado. Mantivemos pessoas em nosso laboratório aqui em Ames acordados por 28 horas em um quarto escuro, em uma cama, e os mandamos fazer este teste repetidamente para ver como era a sensibilidade quanto a perda do sono.

É a denominada tarefa de vigilância psicomotora e consiste essencialmente num simples teste de tempo de reação. Basicamente, o que se faz é apresentar um estímulo, e cada vez que houver o estímulo, aperta-se um botão, o que é deliberadamente maçante. E assim, quando estamos entediados ao fazer algo assim, isso revela nossa sonolência subjacente. Poderemos então usar esse dispositivo tanto na aviação, como no vôo espacial para determinar se alguém está descansado e alerta o suficiente para fazer o que precisa ser feito.

Pode parecer estranho, mas não somos muito bons em dizer quando não estamos funcionando perfeitamente, por isso, é preciso ter um dispositivo objetivo que possa ser capaz de dizer: “Oh, essa pessoa pode não estar pronta para fazer essa tarefa complexa, vamos deixá-la ter uma soneca, ou cafeína ou algo antes de fazê-lo.”

Como a NASA tenta tornar o sono mais fácil para os astronautas?

É interessante, o espaço ambiente tem tido altos e baixos em relação ao conforto. A Skylab (estação espacial dos E.U.A. que funcionou entre 1973 e 1979) era bastante luxuosa: havia quartos individuais para a tripulação e colchões que pudessem se afivelar. Mas nas espaçonaves lunares Apollo, não havia quaisquer acomodações, o que foi um problema de verdade, deixando os ocupantes muito desconfortáveis pois estavam num ambiente de gravidade parcial, e ninguém pensou sobre onde alguém dormiria uma vez que chegassem à lua.

Então, como eles terminaram?

Sobre os equipamentos. Ou em suas cadeiras. Há algumas narrativas interessantes das missões Apollo sobre quão terrível era o ambiente para dormir.

Esperançosamente, a situação é um pouco mais confortável atualmente?

Sim. Na Estação Espacial Internacional, cada pessoa tem seu próprio quarto individual, essencialmente, e eles podem fechar a porta, amarrarem-se dentro; são como pequenos caixões em que se fecham. Eles têm sacos de dormir com zíper e com velcros que ligam-se às paredes. É possível fazer vários tipos de empacotamentos para conseguir deixar os braços para baixo, o que os ajuda a ter a sensação de ser pressionado contra algo. Alguns deles até mesmo ajustam suas cabeças para um travesseiro.

Uma das coisas mais importantes que fazemos para ajudar os astronautas é a forma como controlamos o ciclo da luz escura lá em cima. Usamos diferentes comprimentos de onda de luz para ajudar a redefinir o relógio biológico. Basicamente, a luz azul é a que tem o efeito mais forte no ritmo circadiano, provavelmente porque nosso céu é azul. Podemos mudar o comprimento de onda para azul quando queremos que os astronautas estejam acordados e alertas, e quando queremos que eles durmam, podemos mudar esse espectro de cores para vermelho para ajudá-los a se preparar para a cama.

Parece como se tivéssemos a certeza de que uma criança possa ter sono suficiente.

É definitivamente muito semelhante, e às vezes eles podem não querer dormir, mesmo quando estão programados para que façam isso. Essa é outra coisa estranha sobre o espaço em comparação ao solo.

Existem algumas surpresas dentro da pesquisa do sono espacial?

Um aspecto é que Marte tem uma órbita um pouco mais longa do que a Terra, o que é um grande desafio, porque se você estiver indo da Terra para Marte, você terá que ser capaz de dormir 39 minutos a mais todos os dias, portanto, uma conclusão a que chegamos é que as pessoas que têm ritmos circadianos mais longos são provavelmente as mais adequadas para ir para Marte.

Referência:

Sarah Kaplan

“Why scheduling naps is one of NASA’s most important jobs”

The Washington Post