A depressão e a privação de sono: terapia da vigília

Não dormir pode causar muitos problemas de saúde. A privação de sono causa problemas motores e cognitivos e pode até mesmo afetar o coração e outros órgãos em longo prazo. E o pior: se você dormir todas as noites, mas poucas horas ou mal, o seu cérebro será tão afetado quanto o de alguém que não dorme nada por algumas noites seguidas.

Por isso é que é tão surpreendente constatar que a privação de sono seja um dos tratamentos mais eficazes para casos severos de depressão. Investigadores estudam essa possibilidade desde a década de 50, e agora novas abordagens que utilizam a privação do sono como um dos “ingredientes” estão a melhorar a vida de alguns pacientes.

Isso acontece porque, aparentemente, a privação do sono causa efeitos diferentes em pessoas saudáveis e naquelas com depressão. Mas é importante salientar: os especialistas dizem que ninguém deve tentar fazer isso sozinho, sem acompanhamento médico.

A técnica envolve não só a privação do sono, mas também o elemento químico lítio. Francesco Benedetti, líder da unidade de psiquiatria e psicobiologia clínica do Hospital San Raffaele, em Milão, Itália, tem investigado a chamada terapia de vigília, em combinação com exposição a luz brilhante e lítio, como meio de tratamento da depressão.

O efeito antidepressivo da privação do sono foi publicado pela primeira vez em pesquisa na Alemanha em 1959. Após isso, o investigador alemão Burkhard Pflug deu sequência às análises ao investigar o efeito na sua tese de doutorado e em estudos subsequentes na década de 1970.

Ainda não sabemos exatamente como o simples fato de permanecer acordados age sobre a depressão, muito em função de que ambos os mecanismos (tanto a depressão quanto o sono) não são completamente compreendidos pela ciência, já que abrangem várias partes do cérebro.

A atividade cerebral de pessoas com depressão é diferente durante o sono e a vigília do que em pessoas saudáveis. Durante o dia, os marcadores do sistema circadiano (relógio biológico interno) que promovem o despertar existem ​​também para nos ajudar a resistir ao sono.

À noite, esses marcadores são substituídos por outros que nos estimulam a dormir. As nossas células cerebrais também funcionam assim: ficam cada vez mais excitadas ​​em resposta a estímulos durante a vigília e essa excitabilidade dissipa-se quando dormimos. Mas em pessoas com depressão e transtorno bipolar, essas flutuações aparecem amortecidas ou ausentes.

A depressão também está associada a ritmos diários alterados de secreção hormonal e de temperatura corporal. Quanto mais grave a doença, maior o grau de ruptura com a normalidade.

Além dos marcadores (zeitgebers) do sono, os ritmos circadianos também são conduzidos através da interação de um conjunto de proteínas, codificadas por genes que são expressos num padrão rítmico ao longo do dia.

As proteínas controlam centenas de processos celulares diferentes, que as permitem permanecer sincronizadas ao “ligar e desligar”. O “relógio” circadiano está em todas as células do nosso corpo, e estes “mini-reloginhos” são coordenados por uma área do cérebro chamada núcleo supraquiasmático, que responde aos estímulos de luz.

“Quando as pessoas estão seriamente deprimidas, os ritmos circadianos tendem a ser muito continuados. Não respondem com o aumento usual da melatonina no início da noite e os níveis de cortisol permanecem consistentemente altos em vez de reduzirem à noite”, explica Steinn Steingrimsson, psiquiatra do Hospital Universitário Sahlgrenska em Gotemburgo, na Suécia, que atualmente executa o teste de “terapia da vigília”.

A recuperação da depressão está associada a uma normalização desses ciclos. “Acho que a depressão pode ser uma das consequências desse achatamento básico dos ritmos circadianos e da homeostase cerebral”, diz Benedetti. “Quando privamos pessoas deprimidas de dormir, restauramos esse processo cíclico”, acredita.

Além disso, a privação do sono traz outras consequências para o cérebro deprimido, como provocar mudanças no equilíbrio de neurotransmissores em áreas que ajudam a regular o humor, e restaurar a atividade normal em áreas de processamento emocional do cérebro, fortalecendo as ligações entre eles.

Referência:

Jessica Maes